sábado, 27 de agosto de 2011

setenta e cinco... sessenta e um...

e eu, trinta. quando ele tinha trinta, ela tinha dezesseis. e daí a três anos, eles se casariam. o que ele viveu antes? o que ela viveu?
pelas suas histórias, ele começou muito cedo, na roça, plantando e colhendo. coisas que não vejo mais, só na televisão. e quando ele me conta suas histórias, com todos os detalhes (que memória!) me emociono. já ouvi várias vezes, mas sempre gosto de ouvir de novo e de novo. ouvir sobre o primeiro par de sapatos, que calçou invertidos. lembrar de quando juntou suas roupas num saco branco e foi embora trabalhar para ajudar seus pais, ouvir que mandava dinheiro para sua mãe todo mês, que sempre foi muito bom pra ela e que a ama muito e sente muito a sua falta.
sentir sua emoção quando fala de como escolheu sua profissão, profissão esta que me deu a oportunidade de ser quem eu sou hoje. "olhe aí rapaz, veja do que gosta que vou te ensinar uma profissão..." e ele foi olhando, uma a uma, vendo como aqueles homens trabalhavam, o que faziam e como ficava bom, bonito. a beleza o atraiu. viu o pára-choques brilhando, novinho e escolheu aquela ali mesmo. e assim trabalhou por anos, para nos sustentar, nos dar a oportunidade de estudar, de ser alguém.
ela? irmã mais velha de sete filhos, pai carrancudo (não o conheci, apenas ouvi falar). às vezes me falava sobre os vestidos para a festa da igreja, adoro quando me conta dos flertes que teve com ele. teve emoções, amores, mas que não foram em frente, seu pai não deixou. ainda bem, porque assim ela acabou escolhendo ele. isso depois de fugir dele numa dessas festas, andar abaixada no meio da multidão. isso me dá uma sensação gostosa de que foi tudo muito divertido. o flerte. quando era menina, também na roça, brincava com as outras meninas, poucas lembranças, aquela do carnaval, quando encurtaram a roupa, o pai de pijama indo atrás dela, o presente que ele um dia deu, mas não deu o abraço. um simples abraço. talvez se tivesse dado, ela sentiria saudades.
mas que bom que os dois se casaram. e isso faz quarenta e um anos! e eu tenho trinta... e ele tem setenta e cinco... e ela tem sessenta e um...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ainda bem que tenho um trampolim...

O dia... Que dia... Todos os dias tem sido assim. Não é por você, nem por mim, mas por eles, por elas. O vento, até o vento incomoda. E nessa época venta tanto! Mas ainda bem que tenho o trampolim. Ainda bem...
É nele que descarrego minha fúria, meu desgaste, meu cansaço. Me canso, mas descanso. Quanto mais forte piso, mais fico cansada, mais fico aliviada. É como se o mundo todo não tivesse importância, como se não existisse mais nada. É claro que existe! Mas não ali, naquele momento.
Às vezes você tem vontade de chorar, de desistir, de jogar tudo pro alto? Eu também... Acho que todo mundo tem essa vontade. Mas o problema é que se todo mundo jogar tudo pro alto, vai ser uma tempestade de problemas caindo sobre nossas cabeças e não vamos suportar a dor que virá de cima. Então o negócio é você tentar se safar do mundo sem que o mundo te detone com um simples dia difícil.
Deixa eu ficar aqui quietinha só por um instante. Deixa? Não quero continuar a correria. Optei por ter uma vida calma e tranquila. Alguém falou isso e eu achei bacana. Também estou tentando fazer esta opção. Nem sempre dá certo, mas é como um vício que se tem e que se quer largar. Tenho que tentar todos os dias ter um dia calmo e tranquilo. E se não o for, não posso desistir. Afinal, amanhã começa tudo de novo!
E é por isso que hoje, quando pensei em ir embora pra casa, voltei e fui pro trampolim. Pelo menos lá não preciso de mais nada, só de água, e pouca. Acho que todo mundo deveria ter um trampolim. Cada um escolhe o seu. Mas tem que ter.
O meu trampolim é um trampolim mesmo. Mas o seu pode ser qualquer coisa, qualquer pessoa, qualquer relax. Mas você precisa de um trampolim.
Ainda bem que ele existe...

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Sonhos. Pesadelos. Pessoas. Números.

Não sei bem como começar. Mas tenho que começar. Não sei por onde, nem o porquê de tudo isso, mas o começo é sempre o começo. É quando achamos que vai dar tudo certo, ou tudo errado. Copo meio cheio, meio vazio. Questão de ponto de vista. Ponto. E pronto.
Não quero que você me elogie, muito menos que se impressione com tudo isso. Só quero mesmo desabafar um pouco, falar da vida, da minha vida. Talvez eu fale da vida de outrem, mas não muito. Quero falar de mim, do que sinto. Posso até mentir, mas estarei mentindo sobre mim. Falar dos outros é normal. Todo mundo fala. Falar de si mesmo é bem mais complicado. Principalmente quando o sonho pode se tornar pesadelo. Mas isso depende de você, de mim, de quem estiver no sonho.
Dizem que sonhos são vontades da nossa mente que realizamos enquanto dormimos. E quando estamos acordados e pensamos que é um sonho, e que este sonho está se tornando pesadelo? É melhor pular da cama logo, antes que se assuste com as coisas. Sim, coisas. Porque ultimamente pessoas não são mais pessoas, são coisas, matrículas, senhas, cadastros. Não pessoas.
Queria voltar a ser "pessoas". Por isso volto pra casa, meu lar doce lar. É aqui o meu refúgio, aqui sou pessoa.
Hoje na hora do almoço, me deparei com uma pessoa entre tantas outras que me chamou a atenção. Todos pedem "uma esmola por favor", mas este implorou por um prato de comida. Como todos os outros, eu disse que não tinha dinheiro. Menti. Eu tinha. Uns vinte passos à frente não consegui prosseguir. Voltei. Dei a ele o prato de comida que tanto queria. E quem ficou mais feliz? Eu. Porque pra ele era só mais um prato de comida e ele não deve nem saber quando vai comer de novo. Não eve nem sonhar. Mas eu fiquei feliz.
E é por essas e outras coisas que, às vezes, consigo pensar que os sonhos ainda podem existir e, quem sabe até, se tornarem realidade, sem antes, ser pesadelos.